‘Comunicação e cidadania’ é o tema do primeiro módulo da disciplina que estou cursando no Mestrado.
Para o nosso segunda encontro, lemos o terceiro capítulo de Cidadania, classe social e status, de Thomas Marshall, e alguns capítulos de História da Cidadania, organizado por Jaime Pinsky e Carla Bassanezi.
Cada sublinhado que fiz nestes textos poderia dar um post. Vou elencar aqui dois que me chamaram muito a atenção:
Marshall:
1. Pág 80 (…) O status uniforme de cidadania ofereceu o fundamento da igualdade sobre a qual a estrutura da desigualdade foi edificada
- A construção do conceito de cidadania e a aquisição de direitos iguais a todas as classes sociais são contemporâneas ao fortalecimento do capitalismo. Essa aparente contradição se explica pelo fato de que os primeiros direitos conquistados pelo homem foram justamente aqueles que basearam a instauração do livre mercado. Neste contexto de se exaltar a liberdade, direitos como o salário mínimo foram negados com o argumento de que seriam uma afronta à individualidade do cidadão em escolher por quanto ele aceitaria vender sua força de trabalho. O que pairava era o entendimento de que todos era iguais, pois tinham liberdade para trabalhar e consquistar suas propriedades, todos eram livres para ascender socialmente. O trabalho, e não a remuneração mínima, é que era um direito.
2. Divisão quantitativa e qualitativa de cidadania
Em seu texto, Marshall sugere a desigualdade quantitativa (econômica) seria legitima. Para ele, há de haver não-proprietários para trabalhar para os proprietários. No entanto, ele condena que essa divisão resulte em cidadãos mais ou menos sofisticados, articulados. Defende um tipo de sociedade onde todos possam participar do coletivo integralmente, onde todos sejam ‘cidadãos completos’.
Essa história de ‘cidadão completo/incompleto’ imediatamente me lembrou do livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Em uma das passagens, o autor narra os pensamentos que passam pela mente do pai da família de retirantes, Fabiano. Descritas pelo narrador, as idéias são claras e bem ponderadas, mas quando chegam à fala de Fabiano viram grunhidos, pois ele não tem a articulação necessária sequer para interpretar o que pensa sobre as situações a que é submetido. Fiz uma paródia sobre isso, mesclando esse trecho do livro com frases de 1984, de Orwell, para uma disciplina da Faculdade. Está no meu blog não-temático.
Meu questionamento sobre isso é: quão dependente uma da outra são as desigualdades quantitativas e qualitativas? Será que a desigualdade econômica sobreviveria se todos pudessem compreender e participar igualmente do mundo em que vivem?
Argumentaram na aula que isso já acontece em países como a Suécia. Lá, disseram, há desigualdade econômica (não proprietários trabalham para proprietários) e todos têm acesso à educação e à participação na comunidade em que vivem de forma igual. Eu ainda assim tenho minhas dúvidas. Concordo com uma frase que ouvi não lembro onde que dizia que a existência de certos empregos dependem da ignorância dos que o executam sobre determinados assuntos. Acho que só vou chegar a uma conclusão quando descobrir como funciona um callcenter suéco.